“Honrando as Parteiras Indígenas: Salvaguardando a Vida e o Bem-Estar” : 9/8 – Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo 2026


Os povos indígenas estão indiscutivelmente entre os grupos mais desfavorecidos e vulneráveis do mundo. Contudo, são os melhores guardiões da natureza. Possuem, gerenciam, usam ou ocupam mais de um quarto da área terrestre global e algumas das áreas mundiais mais biodiversas são encontradas em suas terras. Portanto, seu conhecimento tradicional é fundamental para entender a natureza.

Para reconhecer que são necessárias medidas especiais para proteger seus direitos e manter suas culturas e modos de vida distintos, em 1994, a Assembleia Geral das Nações Unidas criou, por meio da resolução 49/214, o Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, a ser celebrado em 9 de agosto de cada ano. A data marca a primeira reunião, em 1982, do Grupo de Trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Populações Indígenas.

De acordo com dados da ONU, existem aproximadamente 476 milhões de indígenas em 90 países, representando pouco mais de 5% da população mundial.


O tema deste ano: “Honrando as Parteiras Indígenas: Salvaguardando a Vida e o Bem-Estar”, pretende chamar a atenção para a importância da obstetrícia indígena como um sistema de conhecimento vivo, destacando suas contribuições para o bem-estar da comunidade, ilustrar os desafios que elas enfrentam na manutenção e na transmissão de seu conhecimento, bem como para reiterar a necessidade de que haja avanço na implementação das políticas e compromissos internacionais para sua proteção.


Políticas públicas de saúde

Para Érica Dumont, professora de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora em saúde indígena, os saberes tradicionais podem colaborar em diversas fases da vida, principalmente no nascimento. “Temos vários estudos hoje que indicam que as mulheres, no contexto do parto e do pós-parto, se sentem muito seguras com as orientações das parteiras tradicionais e sentem maior conforto em aderir ao cuidado delas. Então, mesmo que a assistência seja feita na unidade de saúde, quando elas estão acompanhadas por uma parteira, o pré-natal é mais tranquilo”. Ela acrescenta que esse tipo de pré-natal costuma envolver outras dimensões como a espiritualidade, a relação com a ancestralidade, a terra e o território.

De acordo com a pesquisadora, dados atualizados mostram que na maioria dos casos é possível viver a gestação e os partos nas aldeias, sem a necessidade de encaminhamento para uma cesariana ou intervenções fora do território. Além disso, os conhecimentos das parteiras são notórios nos cuidados. “Elas têm várias ervas e rezas que contribuem para reduzir a infecção no pré-parto e pós-parto. Há também um cuidado com a alimentação saudável, fortalecedora da mãe e do bebê. Tudo isso contribui para a redução da mortalidade infantil e para a melhoria da saúde materna, sem dúvida”, explica.

Para os pesquisadores da área, é importante que exista um diálogo horizontal entre os saberes tradicionais em torno do partejo e os saberes da medicina moderna. “Esse diálogo está previsto na Política Nacional de Saúde Indígena, mas ainda há muitas lacunas. Nem sempre os sistemas tradicionais indígenas, os saberes relacionados às ervas e aos cuidados no parto são incorporados nas unidades básicas de saúde. Ainda temos um longo percurso para que as parteiras, os pajés, as rezadeiras e as benzedeiras, sejam incorporadas de fato ao sistema, mas vários diálogos têm sido feitos nesse sentido”, afirma Érica Dumont.


Marília Nepomuceno, antropóloga e coordenadora do projeto Cartografia das Parteiras Indígenas / Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que o projeto surgiu da necessidade de visibilizar as parteiras indígenas dentro do universo das parteiras tradicionais, “porque elas têm contextos, comportamentos étnicos, rituais e cosmovisões particulares”. De acordo com ela, “lançar luz sobre os saberes e práticas das parteiras indígenas”, é fundamental para a preservação de seus ofícios, além de ser um instrumento para facilitar o acesso a políticas que as fortaleçam e gerem uma vida com respeito público.

“As parteiras indígenas têm um conhecimento específico em relação às plantas e ervas medicinais que vão ser usadas no parto e assistência à saúde, têm entendimento sobre posturas, técnicas e manobras que dizem respeito à tradição delas. A maneira de lidar com o parto, com aquele rito de passagem, tem uma especificidade a partir de cada grupo étnico”.

A antropóloga, que também integra a equipe do Museu da Parteira, afirma que a atuação das parteiras extrapola o momento do parto. “As parteiras acabam se tornando, nas comunidades que são referência, delegadas, assistentes sociais, cuidadoras. Elas desempenham essa função de cuidado comunitário. São muito mais do que pessoas que acompanham as mulheres na hora que elas estão dando à luz. Elas são, de fato, mestras detentoras de saber, cuidado e auto atenção comunitárias”.


Em 2026, como 9 de agosto é um domingo, a celebração do Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo acontecerá online, na segunda-feira, dia 10, sob o tema: “Honrando as Parteiras Indígenas: Salvaguardando a Vida e o Bem-Estar”.

A comemoração virtual incluirá um segmento de abertura com uma cerimônia espiritual indígena, declarações de altos funcionários da ONU e uma declaração do Presidente do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas. Seguir-se-ão dois diálogos moderados com oradores convidados e uma discussão interativa:

– Diálogo 1: Parteiras Indígenas como Detentoras do Conhecimento e Guardiãs do Bem-Estar.

Este diálogo moderado terá como objetivo aumentar a conscientização sobre a obstetrícia indígena como um sistema de conhecimento indígena vivo, destacar as contribuições das parteiras indígenas para o bem-estar da comunidade e ilustrar os desafios que elas enfrentam na manutenção e transmissão de seu conhecimento.

– Diálogo 2: Do Reconhecimento à Ação: Protegendo e Apoiando a Obstetrícia Indígena.

Este diálogo examinará reformas políticas e caminhos práticos para o reconhecimento da obstetrícia indígena como sistemas de conhecimento essenciais e para o avanço na implementação de compromissos internacionais, obrigações de direitos humanos e recomendações relacionados.


Mais informações sobre o evento:

Data: Segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Horário: 08:30-10:30 AM EDT (Horário de Nova Iorque)
Nota conceitual: EN | ES
Programa provisório: EN | ES
Inscrições, aqui!

Haverá serviço de interpretação em inglês e espanhol, gentilmente oferecido pela Land is Life.


Fontes:

Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, Artes e Humanidades
Organização das Nações Unidas (ONU) / Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais – Inclusão Social
Laboratório de Comunicação Digital da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas
Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) / Ministério da Saúde
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

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