“Mulheres em destaque: garantindo um futuro livre da doença de Chagas para as próximas gerações”

O Dia Mundial da Doença de Chagas, celebrado em 14 de abril, marca a data do primeiro diagnóstico da enfermidade feito em humanos, por Carlos Chagas em 1909. A data foi incluída no calendário mundial da saúde em 2019 e passou a ser oficialmente comemorada em 2020.
A campanha de 2026 coloca as mulheres onde elas devem estar: no centro das atenções. Por muito tempo, as mulheres foram negligenciadas e injustamente estigmatizadas como uma “fonte de infecção” para a doença de Chagas congênita — culpadas por transmitir o parasita aos seus filhos. A realidade é bem diferente.
A grande maioria das mulheres que vivem com a doença de Chagas foi infectada da mesma forma que seus familiares e vizinhos: por exemplo, por meio da transmissão vetorial pelo inseto triatomíneo ou pelo consumo de alimentos ou bebidas contaminadas. Elas não são a origem do problema — estão entre os milhões de vítimas esquecidas.
Apesar disso, meninas e mulheres em idade fértil têm sido sistematicamente negligenciadas. Elas enfrentam falta de informação, educação e conscientização, além de acesso limitado a diagnóstico e tratamento. Isso as deixa vulneráveis ao desenvolvimento de cardiomiopatia e a uma gravidez de alto risco, ou à transmissão da infecção para seus filhos. Além disso, recebem pouco apoio para o papel vital que desempenham na prevenção e no controle da doença de Chagas nos âmbitos familiar, doméstico e comunitário. As consequências são graves: até um terço das mulheres com infecção por T. cruzi desenvolverá alterações cardíacas que podem levar à cardiomiopatia, transformando a gravidez em um evento de alto risco tanto para a mãe quanto para o bebê.
Os fatos exigem ação:
– Cerca de 2 milhões de mulheres entre 15 e 44 anos vivem com infecção por Trypanosoma cruzi em todo o mundo.
– A transmissão durante a gravidez ou o parto ocorre em cerca de 3 a 5% das gestações e é atualmente a principal via de infecção em áreas onde a transmissão vetorial é controlada e em nível global.
– Se não tratada, um terço das pessoas infectadas — incluindo mulheres e seus filhos — desenvolverá problemas cardíacos, digestivos e até neurológicos que alteram suas vidas.
– No entanto, o tratamento de meninas e mulheres infectadas antes da gravidez é praticamente 100% eficaz na prevenção da transmissão congênita.
– E quando os recém-nascidos infectados são diagnosticados e tratados no primeiro ano de vida, a taxa de cura ultrapassa 90%.
Neste Dia Mundial, apela-se aos sistemas de saúde, aos políticos tomadores de decisão, ao sistema educativo e às comunidades para que:
– Examinem todas moças e mulheres em idade fértil e em risco – antes da gravidez;
– Tratem todas as moças e mulheres em idade fértil (antes ou entre as gestações) diagnosticadas com infecção por T. cruzi de forma rápida e eficaz, protegendo a sua saúde e a dos seus futuros filhos;
– Examinem todos os recém-nascidos de mães infectadas, pelo menos ao nascimento e após os 8 meses, juntamente com os seus irmãos, garantindo que nenhum diagnóstico seja perdido;
– Promovam a implementação de protocolos legais para aumentar a cobertura da saúde materno-infantil em relação à doença de Chagas;
– Introduzam componentes de educação em saúde sobre saúde materno-infantil para aumentar a conscienciatização em nível comunitário e familiar;
– Apoiem as mulheres como parceiras centrais na vigilância e prevenção – na preparação e armazenamento seguros de alimentos para evitar a transmissão alimentar, no cuidado dos familiares afetados e na quebra definitiva do ciclo de transmissão congênita.
A doença de Chagas, também chamada de tripanossomíase americana, tem sido denominada “doença silenciosa e silenciada”, não apenas por seu curso clínico lento e frequentemente assintomático, mas também porque afeta, principalmente, pessoas pobres que não têm voz política ou acesso a serviços de saúde.
Endêmica nos países da América Latina, a enfermidade está presente em muitos outros, tornando-se um problema de saúde global. A conscientização sobre essa doença tropical negligenciada, frequentemente diagnosticada em seus estágios finais, é essencial para melhorar as taxas de tratamento e cura precoces, juntamente com a interrupção de sua transmissão.
No Brasil, estudos estimam uma prevalência de 1,0 a 2,4% da população, o equivalente a 1,9 a 4,6 milhões de pessoas infectadas por T. cruzi, dado que se reflete na elevada carga de mortalidade pela doença no país.
Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a infecção é transmitida nas seguintes condições:
– contato com fezes de parasitos infectados, após picada pelo inseto barbeiro;
– ingestão de alimentos contaminados com parasitos;
– transmissão de parasitos de mulheres infectadas para seus bebês, durante a gravidez ou o parto;
– transfusão de sangue ou transplante de órgãos de doadores infectados a receptores sadios;
– acidentalmente, pelo contato da pele ferida ou de mucosas, com material contaminado.
Sintomas
Na fase aguda, os principais sintomas são:
– febre prolongada (mais de 7 dias);
– dor de cabeça;
– fraqueza intensa;
– inchaço no rosto e pernas.
Na fase crônica, a maioria dos casos não apresenta sintomas, porém algumas pessoas podem apresentar:
– problemas cardíacos, como insuficiência cardíaca;
– problemas digestivos, como megacolon e megaesôfago.
Tratamento:
O tratamento da doença de Chagas deve ser indicado e acompanhado por um médico, após a confirmação da doença. Os medicamentos são disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde, gratuitamente.
Prevenção:
A prevenção da doença está intimamente relacionada ao modo de transmissão.
Uma das formas de controle é evitar que o inseto “barbeiro” forme colônias dentro das residências, por meio da aplicação de inseticidas residuais, feita por equipe técnica habilitada.
Em áreas onde os insetos possam entrar nas casas voando por aberturas ou frestas, podem-se usar mosquiteiros ou telas metálicas.
Recomenda-se usar medidas de proteção individual (repelentes, roupas de mangas longas, etc.) durante a realização de atividades noturnas em áreas de mata.
Prevenção da transmissão oral (pelos alimentos):
– Lavar bem frutas, verduras e legumes com água potável;
– Observar os alimentos antes de triturar ou bater;
– Manter o local de preparo limpo e protegido;
– Guardar alimentos em recipientes fechados;
– Realizar orientações e treinamentos para quem manipula alimentos.
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Fontes:
Fundação Oswaldo Cruz
Ministério da Saúde. Saúde de A a Z
Organização Mundial da Saúde
