“Problema mundial das drogas: desafios persistentes, novas dinâmicas, respostas inovadoras” : 26/6 – Dia Internacional Sobre Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas 2026


O Dia Internacional contra Abuso e Tráfico Ilícito de Drogas, celebrado anualmente em 26 de junho, foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1987. A data objetiva conscientizar a população global sobre esse tema, enfatizando a necessidade de combater os problemas sociais criados pelas drogas ilícitas, além de planejar ações de combate à dependência química e ao tráfico.


O consumo global de drogas e sua quantidade no mercado têm aumentado nas últimas décadas. O domínio centenário da heroína nos mercados globais ilícitos de opioides está sendo cada vez mais desafiado por mudanças no fornecimento ilegal dessas substâncias.

A produção, as apreensões e o consumo de cocaína continuam a crescer, enquanto os baixos custos de fabricação e os menores riscos de detecção de drogas sintéticas contribuem para o seu aumento nos mercados de drogas ilícitas.

Grupos de narcotráfico estão buscando inovações tecnológicas para atingir novos públicos e garantir que as drogas cheguem cada vez mais aos seus usuários, impulsionando seus negócios bilionários. Os mercados de drogas ilícitas sempre estiveram em constante adaptação, e o crime organizado sempre buscou explorar as lacunas na governança e na regulamentação.

Em resposta a esses desafios, a campanha de 2026 pretende mostrar como a comunidade internacional, os governos locais e nacionais, a sociedade civil e o público estão trabalhando juntos em respostas inovadoras para reduzir a demanda e a oferta de drogas ilícitas e, assim, mitigar as ameaças, por meio de:

– Implementação de novas iniciativas de prevenção para reduzir e combater as vulnerabilidades das pessoas, especialmente dos jovens, e das comunidades, diminuindo o risco de exploração por redes criminosas;
– Garantia da segurança de portos, aeroportos, rotas marítimas e fronteiras terrestres ao longo das principais rotas de tráfico;
– Coleta e análise de dados para moldar as políticas de drogas;
– Detecção e identificação de drogas e dos produtos químicos utilizados na sua produção ilícita;
– Compreensão dos produtos químicos utilizados no fabrico ilícito de drogas, bem como o seu manuseio e eliminação seguros;
– Apoio às respostas em todo o sistema de justiça criminal, desde a intercepção até à investigação e o processo penal;
– Criação de oportunidades para que os agricultores passem do cultivo de drogas ilícitas para meios de subsistência lícitos e sustentáveis;
– Inclusão de novas substâncias sob controle internacional para responder às novas ameaças relacionadas a drogas.


No Brasil, o uso de drogas ilícitas aumentou, em média, 80% em pouco mais de uma década. De 2012 a 2023, a proporção de pessoas que experimentaram alguma substância psicoativa de uso proibido ao menos uma vez na vida passou de 10,3% para 18,7%. No mesmo período, a taxa de consumo recente desses compostos subiu de 4,5% para 8,1% . Divulgados em dezembro [de 2025], esses dados integram o caderno temático sobre o consumo de cannabis e outras substâncias psicoativas do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Nessa edição do Lenad, a equipe liderada pela psicóloga Clarice Sandi Madruga, da Unifesp, aferiu a taxa de experimentação e de consumo recente de 16 drogas ilícitas no país por meio de entrevistas realizadas com uma amostra representativa da população brasileira maior de 14 anos. Essa é a segunda edição do levantamento que coleta dados sobre o consumo de drogas e de outras substâncias psicoativas – compostos que modificam o funcionamento do sistema nervoso central e alteram o humor, as emoções ou a percepção da realidade e são de comercialização proibida.

A maconha e outros derivados da cannabis, como o skank e o haxixe, são de longe as drogas mais usadas no país. Também são as que mais contribuíram para o aumento observado no consumo de substâncias psicoativas ilícitas.

A segunda droga mais utilizada foi a cocaína. Na sequência, as substâncias psicoativas mais consumidas foram os estimulantes do grupo das anfetaminas; os inalantes à base de solventes, como lança-perfume, cola de sapateiro, entre outros; e o ecstasy, geralmente ingerido na forma de pílulas. O uso de crack permaneceu relativamente baixo – cerca de 1,4% já experimentou e 0,5% fumou no último ano – e concentrado em grupos específicos, sem sinais de expansão recente. Uma proporção também pequena já consumiu substâncias psicoativas de composição desconhecida, que potencialmente podem trazer um risco maior de eventos adversos graves e maior dificuldade para a atuação dos profissionais da saúde em casos de emergência: 1,5% experimentou e 0,4% usou no último ano.


Abuso de drogas e saúde

Os transtornos por uso de substâncias constituem um dos desafios emergentes de saúde pública mais importantes na Região das Américas. A crescente carga de doença, mortalidade e incapacidade associada ao consumo de substâncias evidencia a necessidade de fortalecer respostas integrais por meio dos sistemas de saúde e de políticas públicas baseadas em evidências.

Dados recentes publicados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostram que, em 2021, aproximadamente 17,7 milhões de pessoas viviam com transtornos por uso de substâncias na Região das Américas, resultando em mais de 77 mil mortes e mais de 7,5 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade. O estudo também destaca um aumento sustentado da carga associada ao consumo de substâncias, particularmente relacionada aos opioides e às anfetaminas, bem como um crescimento significativo entre mulheres e jovens.

Essa situação evidencia a necessidade de fortalecer respostas integrais, equilibradas e centradas na saúde pública que abordem o fenômeno por meio da promoção da saúde, da prevenção, da atenção integral, da redução de danos, do monitoramento e do fortalecimento das capacidades institucionais.

Nesse contexto, a OPAS vem desenvolvendo ferramentas técnicas para apoiar os países na formulação, implementação e avaliação de políticas públicas sobre substâncias psicoativas, promovendo respostas integrais, baseadas em evidências e centradas nas pessoas. Entre essas ferramentas encontra-se o Manual para o desenvolvimento de políticas públicas sobre drogas a partir de uma perspectiva de saúde pública (disponível em espanhol), que promove uma abordagem integral e equilibrada para fortalecer as respostas nacionais aos problemas associados ao consumo de substâncias psicoativas.

Apesar da disponibilidade de intervenções e políticas baseadas em evidências, persistem importantes lacunas no acesso a serviços integrais de prevenção, tratamento e atenção, bem como desafios relacionados à implementação de sistemas sustentáveis de resposta a partir da saúde pública, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e limitações institucionais.

Nesse sentido, fortalecer as capacidades técnicas dos países para desenvolver respostas integrais ao consumo de substâncias psicoativas constitui uma prioridade. Isso inclui promover políticas públicas baseadas em evidências, abordagens de saúde pública, coordenação intersetorial e sistemas sustentáveis de prevenção.

“O consumo de álcool e outras drogas é um problema que se apresenta às sociedades em todo o mundo e nem sempre os profissionais de saúde estão capacitados para abordá-lo de forma adequada junto ao usuário. Dados de 2012 mostram que o Brasil apresenta elevação no consumo de substâncias com os consequentes prejuízos individuais e sociais e urgente necessidade de contar com equipes de saúde treinadas para uma abordagem integral do problema. Alguns fatores dificultam o contato dos profissionais de saúde com a área da dependência química, como a pequena carga horária dedicada ao tema durante a formação acadêmica e o caráter alarmista que os meios de comunicação e o discurso político associam ao usuário de drogas. A capacitação permanente das equipes de saúde, a ampliação dos espaços acadêmicos de discussão e a revisão do discurso midiático e político, são algumas das alternativas que podem favorecer a compreensão do tema como parte das ações também de responsabilidade do setor saúde”. GALLASSI, A. D.; SANTOS, V. dos. O abuso de drogas: desafios e opções para a prática do profissional de saúde no Brasil. Brasília Médica, v. 50, n. 1, 2013.


Reafirmando que o uso de álcool e outras drogas é um grave problema de saúde pública, reconhecendo a necessidade de superar o atraso histórico de assunção desta responsabilidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e buscando subsidiar a construção coletiva de seu enfrentamento, o Ministério da Saúde (MS) apresentou, em 2001, a “Política para a Atenção Integral ao Uso de Álcool e Outras Drogas”.

Na estrutura do MS, o Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas (Desmad) é responsável por criar, coordenar, colocar em prática, com Estados e municípios, acompanhar e avaliar a política de saúde mental, álcool e outras drogas no Brasil.

A assistência em saúde mental no SUS baseia-se em uma rede integrada de serviços (Rede de Atenção Psicossocial – RAPS) que atende pessoas com sofrimento mental ou que enfrentam problemas com uso prejudicial de álcool e outras drogas, articulando diferentes pontos de atenção para garantir um cuidado integral e contínuo.


Como parte das atividades alusivas ao Dia Internacional, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês), publica o Relatório Mundial sobre Drogas, repleto de estatísticas importantes e dados factuais obtidos por meio de fontes oficiais, abordagem científica e pesquisa. O documento será publicado em 26 de junho e estará disponível neste link.


Fontes:

Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC)
Mariana Ceci / Revista Pesquisa FAPESP n. 360, fev. 2026
Ministério da Saúde
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)

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